Economia

Conheça os obstáculos monetários de Haddad

Dólar bate R$ 6,28, juros futuros disparam e Banco Central precisa intervir. Será que o ministro da Fazenda está pronto para os desafios do câmbio em 2025?

Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em evento jurídico na capital paulista, questões sobre o dólar não faltaram (Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Por Paula Cristina

Na economia, uma reação dificilmente é desencadeada por um único motivo. É sempre uma confluência de fatores que derrubam ou elevam o otimismo, são sempre indícios, sinais e percepções que despertam a volatilidade — afinal, a economia vive da expectativa. E quem olhou o cenário na semana que antecedeu o Natal tomou um susto: o dólar bateu R$ 6,28, e cravou, na reta final de 2024, um aumento de quase 30% em um ano. As taxas de Deposito Interfinanceiros (DI) registraram alta de mais de 50 pontos-base de um dia para o outro, colocando no maior patamar dos últimos dois anos a curva dos juros futuros do médio e longo prazos.

Mas, se a economia deve crescer mais do que o esperado em 2024, o desemprego está no nível mais baixo em uma década e as empresas estão investindo, o que explica este mau humor do mercado? Neste ponto, são muitas respostas.
● Insatisfação com o pacote fiscal,
● temor com mudança no comando do Banco Central,
● estado de saúde do presidente Lula,
● e retorno de Donald Trump à Casa Branca explicam, em parte, o movimento.

Em um mês o dólar saltou de R$ 5,67 para R$ 6,28, mesmo com as intervenções do BC vendendo a divisa estrangeira para segurar o câmbio. E se são vários os motivos do estresse, o ansiolítico para o mercado também precisará vir em várias doses. E Fernando Haddad deve ser o responsável por essa administração do remédio.

3,8%
foi a alta do dólar entre os dias 16 e 18 de dezembro

4,4%
é o avanço da divisa norte- americana em dezembro

29%
foi o salto do dólar no acumulado do ano

Na quarta-feira (18) ele tratou sobre a questão fiscal. O arrocho de R$ 70 bilhões, dividido em dois anos, foi visto como insatisfatório para controle das contas públicas, em especial por 2026 ser um ano eleitoral e tradicionalmente mais gastador.

“Eu nunca falei que isso [processo de cortes de gastos] é um trabalho que se encerra. Não se encerra. Nós vamos acompanhá-lo. Vamos fazer uma avaliação do que foi aprovado, nós temos também a questão da desoneração da folha que tem uma pendência no Supremo que nós vamos resolver”, afirmou o ministro, a jornalistas na portaria do ministério da Fazenda, quando em ia a um almoço com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. O encontro, inclusive, vem para tentar encontrar solução para outras incertezas do mercado, a questão das emendas no Orçamento e o avanço da regulamentação da reforma tributária, além das partes do pacote fiscal que competem ao Legislativo.

Outras questões, sobre a autonomia do Banco Central e independência de Gabriel Galípolo, seu pupilo, no comando da política monetária também tem sido tratadas pelo ministro.

Em evento na capital paulista, ele afirmou que o trato republicano impede que o governo tente ou faça qualquer movimento que fira o princípio constitucional do BC, que é prezar pelo bom andamento da moeda. Ele reforçou, inclusive, os posicionamentos de Galípolo nas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) que acompanhavam as decisões do então presidente, Roberto Campos Neto. “Isso não significa que não haverá diálogo e que não vamos trabalhar para atender as expectativas dos diretores e garantir uma redução da taxa”, afirmou. Sobre política internacional, em especial o Trump, Haddad disse confiar na capacidade diplomática de Lula e minimizou qualquer tensão.

CALCANHAR DE AQUILES

Se o discurso parece moderado e conciliador com os diante dos fatores macroeconômicos, quando o assunto é a alta do dólar em si, Haddad adota um tom mais duro. “Há contatos conosco falando em especulação, inclusive jornalistas respeitáveis falando disso. Eu prefiro trabalhar com os fundamentos, mostrando a consistência do que nós estamos fazendo em proveito do arcabouço fiscal para estabilizar isso. Mas pode estar havendo [ataque especulativo]. Não estou querendo fazer juízo sobre isso porque a Fazenda trabalha com os fundamentos. E esses movimentos mais especulativos, eles são coibidos com a intervenção do tesouro e Banco Central”, declarou Haddad. Diante da crise cambial, Haddad cancelou suas férias.

Ele também reforçou que a economia brasileira atua com o chamado câmbio flutuante, com o dólar oscilando, para cima e para baixo, de acordo com os movimentos do mercado — e eventuais intervenções por parte do Banco Central, que, em tese, servem para corrigir distorções e problemas de falta de liquidez.

Ele disse acreditar que, em um momento de pendência do pacote fiscal, sob análise do Legislativo, a moeda norte-americana terá oscilações. “Mas eu acredito que ele [dólar] vai se acomodar. Eu tenho conversado muito com as instituições financeiras. A previsão de inflação para o ano que vem, a previsão de câmbio para o ano que vem. Até aqui, nas conversas com as grandes instituições, as previsões são melhores do que os especuladores estão fazendo.

Mas, enfim, o Banco Central tem agido. O Tesouro passou a atuar na recompra de títulos. E eles vão continuar acompanhando até estabilizar.” A dúvida do mercado, seja ela motivada por pânico coletivo ou não, é quanto tempo leva para os ansiolíticos do governo fazerem efeito.